Percepção dos estímulos fracos_A. (Cid Pacheco, 1996)

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Teoria Psico-física dos Limiares de Percepção
Por: Cid Pacheco
Roteiro de aula / ECO-UFRJ

1 FATOS FUNDAMENTAIS
1.1 Fato 1. A experiência mais comum ensina-nos que um organismo é incapaz de responder a um estímulo muito fraco.
1.2 Fato 2. Outrossim, somos incapazes de diferençar dois estímulos da mesma natureza se as duas intensidades forem muito vizinhas.

2 CONCEITO DE “LIMIAR DE PERCEPÇÃO” (Ou limites de sensibilidade psicofísica)
2.1 O fato de estímulos muito fracos não suscitarem respostas (i.é, não serem “percebidos”) conduz a pressupor que a sensibilidade psicofísica do organismo tem um limite, i.é, um limiar, abaixo do qual não ocorre percepção – ou consciência dela.
2.2 Limiar perceptual – é a medida física do menor estímulos capaz de provocar uma resposta.
2.3 Limiar “absoluto” – é o menor valor do estímulo que suscita uma resposta do sujeito.
2.4 Limiar diferencial – é a menor diferença entre dois estímulos capaz de ser percebida pelo sujeito.

3 TEORIA CLÁSSICA DOS DIFERENCIAIS F. M. Urban (1910), J. F. Corso (1967), J. Gaussin (1972) e outros. Vide Maurice Reuchlin.
3.1 As flutuações da capacidade perceptiva são causadas por um grande número de fatores independentes. Cada fator, por si só, possui um efeito fraco e tanto pode ser favorável quanto desfavorável (aleatório).
3.2 Para um instante dado, há sempre fatores favoráveis e desfavoráveis compensando-se.
3.3 Grandes flutuações são raras; pequenas flutuações são freqüentes.
3.4 É raro: a) que um estímulo fraco seja percebido ou b) que um forte não o seja.

4 DIFERENÇAS INDIVIDUAIS DOS LIMIARES DE PERCEPÇÃO.
4.1 Observam-se diferenças entre os limiares de sujeitos diferentes.
4.2 Esse fato é constatável e explicável ao nível psicofisiológico.
4.3 Há métodos experimentais que permitem medir os limiares perceptuais. Exemplo:

  • J.B. Davidoff em “Differences in Visual Perception – The Individual Eye” acumula abundante referência de estudos científicos sobre diferenças individuais na percepção das cores, patológica e normal: – “pessoas sem defeitos óbvios podem escolher cores relativamente diferentes, quando requisitadas a fazer coincidir um certo comprimento de onda com a designação verbal da cor respectiva. Diferentes sujeitos, chamados a indicar o estímulo do espectro que coincide com uma determinada cor enunciada, seja vermelho, amarelo, verde ou azul, apresentam respostas diferentes” (Dimmick e Hubbard, 1939).
  • Hiler (1946) e Arnheim (1954) constataram que a cor correspondente ao comprimento de onda de 600 nanometros foi descrita variadamente, por diferentes sujeitos, como amarelo, laranja e vermelho (mas ressalvam que deve-se levar em conta a questão da codificação lingüística).
  • Pickford (1951, 64), Trevor-Roper (1959, 70) constataram, em pintores de renome, diferenças de sensibilidade a variações sutis de tonalidades, atribuíveis a defeitos de visão em alguns casos, ou a uma hipersensibilidade em outros.

4.4 Na música tais diferenças são mais evidentes: o fenômeno chamado “musicalidade” nada mais é do que um elevado grau de sensibilidade à sonoridade: alguns indivíduos, melhor que outros, percebem, identificam, memorizam e reproduzem diferenças nos estímulos sonoros, mesmo que mínimas, indiferenciáveis ao ouvido comum.

4.5 Limiar de aucidade tátil. Exemplo de Y. Galifret (1949) Compasso com afastamento variável das pontas aplicado nas costas da mão:

Afastamento (“2 pontas”)      Respostas (Em mm)
1                                              0 %

          2                                              5 %

          3                                            30 %

          4                                            70 %

          5                                            95 %

          6                                          100 %

4.6 Qualificação dos limiares. Quando dizemos que o limiar de percepção de um sujeito é baixo, entenda-se que esse sujeito tem uma alta acuidade (ou sensibilidade psicofísica) a estímulos fracos, e vice-versa. Esclarecendo, por analogias:

  • Uma cerca baixa é fácil de ser transposta até por uma criança Um limiar baixo permite a passagem (percepção) de estímulos fracos.
  • Um muro alto é difícil de ser transposto, e só um adulto robusto pode fazê-lo Um limiar alto só permite a passagem (percepção) de estímulos fortes.

Ou seja:

  • Limiar baixo                             Acuidade alta (muita sensibilidade)
  • Limiar alto                                Acuidade baixa (pouca sensibilidade)

4.7 Acuidade (ou sensibilidade) “alta” ou “baixa” devem ser entendidas, aqui, como meros atributos psicofísicos, medidas quantitativas. Nunca devem ser entendidas como qualificações valorativas, avaliações sociais, etc. – porque não o são.

5 LIMIARES MÉDIOS NOS GRANDES PÚBLICOS.

Predominância estatística da baixa acuidade:

5.1 A observação científica e a experiência profissional conduzem à constatação de que, nos grandes públicos (ou “massas”) os valores baixos de acuidade ocorrem com freqüência estatística predominante.

5.2 Outrossim, estudos e pesquisas apontam, freqüentemente, uma relação direta entre acuidade psicofísica e nível sócio-econômico-cultural: quanto maior este, maior acuidade psicofísica média; quanto menor um, menor outra.

5.3 Os exemplos, no quotidiano, são óbvios, freqüentes: a altura do som no rádio e na tv; a voz na conversação; a ênfase na gesticulação; o uso sócio-expressivo das cores.

5.4 O pressuposto de preconceito não deve ser subestimado; menos ainda, omitido.

  • A idéia de que o limiar de percepção desce estatisticamente com o nível sócio-econômico-cultural é ética e ideologicamente desconfortável para muitas pessoas, fora do ambiente técnico-profissional.
  • Indiscutivelmente, um certo grau “aristocrático” de preconceito existe embutido naquele pensamento. Mas nele também existe considerável grau de evidência objetiva.
  • Importante é ressalvar que um menor grau de sensibilidade psicofísica em um dos sentidos (principalmente a visão e a audição) não constitui, de modo nenhum, juízo de valor restritivo ao indivíduo, como ser humano ou social.
  • Pode-se ter um dos sentidos menos “sensível” e ser, não obstante, um cidadão e um ser humano de escol. Lembremos de famosos casos extremos históricos: Milton foi cego; Beethoven, surdo; etc.
  • O conceito teórico e prático de “limiar de percepção” deve ser entendido e tratado exclusivamente como fenômeno psicofisiológico, em contexto estritamente técnico, sem extrapolações subjetivas perturbadoras.

5.5 Uma extensa experiência profissional, bem como estudos e pesquisas consolidam e reforçam aquelas normas da prática da comunicação.

Por exemplo: a maioria dos profissionais (publicitários, gerentes de marketing, etc.) com experiência e atividade de frente no varejo popular (Varejão) recusar-se-ia a correr o risco de produzir peças de baixa estimulação sensorial. Sua vivência ensinou-os que tais peças teriam sua percepção e seus efeitos reduzidos, em termos de escala.

6 APLICAÇÃO À PRÁTICA DA PROPAGANDA

6.1 Na comunicação de massa deve-se evitar correr riscos. Ou seja: deve-se evitar o uso de estímulos que, por muito fracos, resultem duvidosos quanto à sua percepção pela maioria dos indivíduos.

6.2 Ao contrário: o uso de estímulos fortes é uma norma mais segura

6.3 Tecnicamente, não se deve pressupor, no público-alvo (sobretudo quando massificado), acuidade psicofísica alta para os estímulos fracos.

6.4 Ao contrário: é mais seguro pressupor acuidade psicofísica baixa, i.é, sensível apenas aos estímulos fortes.

6.5 Concluindo: não se deve considerar o público (quanto massificado) como sendo “muito sensível” (psicofisicamente).

6.6 Ao contrário: é norma mais segura pressupô-lo “pouco sensível” (psicofisicamente).

7 INFLUÊNCIAS CULTURAIS

7.1 Evidentemente o fator cultural é importante na questão.

7.2 Em regra estatística, indivíduos de maior nível cultural tendem a apresentar maior acuidade psicofísica.

7.3 Por intuição, experiência, tradição e também pesquisa abundante, os principais produtos culturais tendem a ser elaborados dentro desse conceito, o que representa reconhecimento e acatamento da sua validade. Exemplos comparativos, por pares antagônicos:

• A programação auditiva das rádios FM e a das AM.

• A programação visual das principais páginas dos jornais “de prestígio” (JB, Est. de S. Paulo) e a dos “populares” (O Dia, UH).

• A programação cinética da imagem da Rede Globo e a das emissoras seletivas, ditas “culturais”.

7.4 Em resumo: as mensagens dirigidas a estratos sócio-culturalmente baixos, tendem a ser hiperestimultadoras; aos estratos altos, hipoestimuladoras.

7.5 Há um estereótipo muito difundido que referenda essa bi-polarização. • As manifestações de cultura “populares” tendem a ser rotuladas de animadas; as eruditas, de chatas. • Substituindo-se animadas e chatas respectivamente por hiper e hipoestimuladoras, o estereótipo ganha conteúdo técnico.

7.6 Dificuldade de leitura. A capacidade de leitura é um fator cultural relevante no processo da percepção da mensagem escrita.

7.7 Entre os dois polos extremos:

         1) o do leitor ótimo
(que lê com rapidez, fluência e facilidades máximas) e

         2) o do analfabeto (incapaz de leitura),
distribui-se uma série contínua de capacidade de leitura
gradativamente deficiente.

7.8 O grau ótimo de leitura é atribuido das minorias de nível sócio-cultural e escolaridade superiores.

7.9 Parcelas consideráveis da população tecnicamente alfabetizada apresenta deficiências de leitura mais ou menos limitadoras da percepção fácil da mensagem escrita e sua subsequente absorção e assimilação. Exemplos. São abundantes os estudos que comprovam as deficiências relativas de leitura das populações ditas analfabetas:

• Ruth McCoy Harris cit. Fredric Wertham: – 3 em cada 5 americanos adultos não lêem com fluência (dificuldades para ler artigos de imprensa de extensão ou dificuldade médias)

• Author’s League Bulletin: – 1/3 da população norte-americana nunca lê livros (porque tem dificuldade em ler textos contínuos longos).

• Indice Fog (sistema de medição de eficiência de leitura, desenvolvido por R. Gunning)

A categoria fácil (easy) impõe os seguintes limites: • sentenças com 15/20 palavras, no máximo;

• 5% de palavras com 3 sílabas no máximo, num texto (em inglês).

8 OUTROS FATORES PSICOLÓGICOS

8.1 Evidentemente, ainda, a percepção dos estímulos fracos é função, também, de vários outros fatores, tais como: • Motivação • Predisposição e interesse • Aprendizado • Atenção e vigilância, etc.

8.2 A presença desses fatores, em graus variáveis, tende a favorecer ou desfavorecer a sensibilidade do sujeito aos estímulos. Ou ainda: a sensibilidade de um sujeito pode variar (dentro de certos limites) em função de diversos fatores.

8.3 O estudo da Psicologia será sempre uma recomendação imperativa aos profissionais da comunicação que aspirem a uma formação ótima e ao exercício competente da sua atividade.

8.4 Há um exemplo clássico que resume didaticamente a interação daqueles vários fatores no processo: “O casal de camponeses dorme à noite. O bebê suspira levemente e a mãe acorda sobressaltada enquanto o pai prossegue dormindo profundamente. Chove lentamente e levanta-se o odor da terra molhada. O homem acorda imediatamente enquanto a mulher prossegue dormindo profundamente.”

9 FATORES ORGÂNICOS.

9.1 Outrossim, há que se considerar que os portadores de deficiências orgânicas redutoras da percepção (congênitas ou adquiridas) representam segmentos estatisticamente expressivos das populações. Exemplo. Se considerarmos que:

  • acima dos 40 anos de idade o indivíduo dito normal começa a apresentar a “vista cansada”;
  • cerca de 10% das pessoas, de todas as idades, são portadoras de algum problema visual (miopia, hipermetropia, astigmastismo, etc.);
  • pode-se estimar em cerca de 30% os indivíduos que, numa população, apresentam alguma forma, de atenuada a grave, de deficiência visual dificultadora da leitura.

9.2 Menos evidentes, mas não desprezáveis estatisticamente, são as deficiências auditivas: • cerca de 10% dos indivíduos são portadores de deficiências da audição, de atenuadas a graves.

9.3 O produtor publicitário (gráfico e eletrônico) deve ter consciência desses fatos, no processo de preparação da peça publicitária.

10 APLICAÇÃO À PRÁTICA DA PROPAGANDA

10.1 O publicitário, como “regra de ouro”, não deve esperar, pressupor, nem contar com “muita” sensibilidade psicofísica nos grandes públicos. I.é: não deve contar com limiares de percepção favoráveis aos estímulos fracos.

10.2 O publicitário, em tese, deve adotar a atitude de que “o público não tem muito interesse pela Propaganda”.

10.3 Assim, o anúncio deve dirigir-se, predominantemente, a um público-alvo cujo limiar médio (estatístico) se convenciona (por estratégia) que será pouco “sensível” a estímulos fracos.

10.4 Gabaritando-se a mensagem por limiares de baixa acuidade psicofísica, garante-se sua percepção pela totalidade do público-alvo. Se, ao contrário, se gabaritasse a mensagem por limiares de alta acuidade, correr-se-ia o risco de comprometer a percepção da mensagem pelos indivíduos de menor acuidade- que constituem uma fração considerável do público; a maioria, quase sempre. (Vide 4.5.1).

10.5 Portanto, como norma (norma acauteladora, jamais uma lei), na dúvida, o publicitário erra menos hiperestimulando a mensagem, do que hipoestimulando-a.

10.6 Evidentemente, há situações em que o bom senso, a lógica, a estratégia, ou a conveniência, aconselham a infringir ou rever essa norma.

11 A PROPAGANDA SUBLIMINAR.
Do latim sub (abaixo) limine (limite)

11.1 É por definição tecnológica estrita, a propaganda cujos estímulos se situariam abaixo do “limine”, i.é, do limiar de percepção (limiar perceptual – vide 2.2)

11.2 Trata-se, pois, de mera curiosidade científica que não ultrapassou os limites dos laboratórios de pesquisa.

11.3 É duvidoso que possa vir a ter aplicação prática: provavelmente (por sua natureza) suas mensagens restrigir-se-iam à mera emissão de sinais: marcas, logotipos, palavras de ordem, tudo muito simples, muito curto, muito rápido.

11.4 No atual estágio de conhecimento é lícito afastar-se a viabilidade de transmissão de mensagens visuais ou orais concatenadas, lógicas, sintaticamente estruturadas, acima da mais elementar simplicidade.

11.5 Não obstante, em muitos países, na dúvida, a legislação preferiu prevenir seu advento proibindo-a, i.é, tornando-a ilegal.

11.6 Incompetentemente, a palavra “subliminar” extravasou seu significado estrito e hoje é largamente aplicada como sinônimo de propaganda motivacional, propaganda indireta, etc., ou, genericamente, designa qualquer mensagem implícita ou que se expressa nas entrelinhas.

11.7 Entendemos que, no universo técnico-profissional, não se deve aplicar indevidamente o termo nem estimular a sua difusão errônea.

12 – APLICAÇÃO À PRÁTICA DA PROPAGANDA

12.1 O fenômeno do limiar de percepção superpõe-se, em grande parte, ao campo disciplinar da Psicologia da Forma, ou Gestalt.

12.2 Assim, o profissional de alto padrão (e muito especialmente o Produtor e o Diretor de Arte) deve buscar informar-se sobre este setor da Psicologia.

12.3 Aplicações gestalticas do limiar de percepção são bastante freqüentes na Natureza e na praxis do quotidiano de diversas atividades:

Exemplos.

a) de hiperestimulação: (favorecer o destaque, reforçar o contraste) • plumas e pelagens distintas em espécies animais; • todo e qualquer sistema de sinalização da segurança (tráfego viário, luzes intermitentes, sirenes, sinais de alarme, etc.).

b) de hipoestimulação: (favorecer a assimilação, reforçar a diluição) • o mimetismo ambiental em espécies animais; • a camuflagem, nas artes bélicas.

12.4 Concluindo:

  • Por definição, a Propaganda é uma função de saliência. Sua natureza é anti-mimética em relação ao ambiente. Seu objetivo, sua razão de ser, é destacar, sobressair, ressaltar, etc.
  • Assim, a situação típica da Propaganda é, como regra, a necessidade de produzir mensagens hiperestimuladoras.
  • A produção de mensagens hipoestimuladoras é, na prática da Propaganda, uma situação atípica, exceção, além de rara.
  • Contudo, como o profissional de Propaganda, por determinismo social, muito freqüentemente emana de níveis econômico-culturais médios ou superiores, é natural que ele seja culturalmente condicionado a considerar as mensagens muito explícitas como sendo de “mau gosto” e incline-se por evitar as formas hiperestimulantes.
  • Deve, contudo, o profissional precaver-se contra projeções pessoais subjetivas nas suas decisões de trabalho.
  • Preservados os compromissos com a função social positiva da Propaganda, o bom profissional deve ater-se a uma visão do problema tão puramente técnica quanto possível, deixando-se guiar predominantemente pela lógica, pelo bom senso e sobretudo, pelo vetor fundamental do seu sistema de decisão: – as características específicas do seu público-alvo.

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