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MANIFESTAÇÕES POLÍTICAS HOJE:
possíveis entendimentos e interpretações sobre as manifestações da opinião pública em meados de 2013, no Brasil e no mundo.

Por: Marcelo Serpa
D.Sc. Comunicação e Cultura (UFRJ), Economista, consultor em opinião pública, comunicação política e ciência eleitoral. Professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

( SERPA, Marcelo H. N.  Manifestações Políticas hoje: possíveis entendimentos e interpretações sobre as manifestações da opinião pública em meados de 2013 no Brasil e no mundo. Revista dObras[s] Número 14 – Junho de 2013. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2013. 156 ps. )

 

É desconfortável assistir a estranheza e surpresa de muitos, frente aos acontecimentos recentes do final do primeiro e início do segundo semestres de 2013. Mas foi nos corredores e salas (e containers) de aula do Campus Praia Vermelha da UFRJ, no Rio de Janeiro, que me dei conta de que muitos dos que se assombravam não dispunham de um quadro completo das grandes manifestações políticas populares brasileiras das últimas décadas. Aí estava a explicação para surpresas e incompreensões: a geração de alunos que ocupa as nossas salas de aula, e dos jovens que se manifestam em nossas ruas, nasceu nos anos 1990, mais precisamente, os que completaram 18 anos são “safra” do ano de 1995. Numa das minhas aulas de Comunicação Política-Eleitoral, ao referir-me muito naturalmente aos “caras pintadas”, chamou-me atenção, um dos alunos, alertando-me quanto ao fato de que muitos ali não tinham a exata dimensão do que se passara, levando-me inclusive a reformular minha exposição a fim de obter maior compreensão de todos, sobre o nosso “batimento cardíaco político” contemporâneo. Melhor assim.

Então começaram a “pipocar” dezenas de posts (no mundo digital) da mesma natureza que os comentários (do mundo real) manifestando as mesmas estranhezas e surpresas dos corredores da Universidade, sobre as manifestações políticas populares brasileiras que assistíamos. Chamou-me a atenção o tom da crônica de Arnaldo Jabour, no telejornal de maior audiência do país (ou teria sido no jornal das dez horas?), não só pela intensidade de surpresa, mas também pela carga de indignação manifestada em crítica a “esses revoltosos de classe média”:

“Mas afinal, o que é que provoca um ódio tão violento contra a cidade? Só vimos isso quando a organização criminosa de São Paulo queimou dezenas de ônibus… Não pode ser por causa de vinte centavos. A grande maioria dos manifestantes são filhos de classe média, isso é visível: ali não havia pobres que precisassem daqueles vinténs, não! Os mais pobres ali eram os policiais apedrejados, ameaçados com coquetéis molotov, que ganham muito mal. No fundo, tudo é uma imensa ignorância política, é burrice misturada a um rancor sem rumo. Talvez a influência da luta na Turquia, justa e importante contra o islamismo fanático. Mas aqui, se vingam de que? Justamente, a causa deve ser a ausência de causas. Ninguém sabe mais porque lutar, em um país paralisado por uma disputa eleitoral para daqui há um ano e meio. O Governo diz que tá tudo bem, apesar dos graves perigos no horizonte, como inflação, fuga de capitais, juros e dólar em alta. Por que não lutam contra o projeto de emenda constitucional 37, a PEC 37, por exemplo, que será votada no dia 26 no Congresso, para impedir o Ministério Público de investigar. Talvez eles nem saibam o que é a PEC 37, a lei da impunidade eterna. Estes caras vivem no passado de uma ilusão. Eles são a caricatura violenta da caricatura de um socialismo dos anos cinquenta que a velha esquerda ainda defende aqui. Realmente, esses revoltosos de classe média não valem nem R$ 0,20” (Arnaldo Jabour, 12 de junho de 2013. Consultado em 20/07/2013 em http://goo.gl/o3W6H ).

Mais bem humorado era o comentário do advogado, comunicador e estudioso de ciência-política, Paulo Senra Breitschaft, meu amigo, colega e associado, no seu Facebook, sobre o andamento das manifestações no Rio:

“Cansei dessa revolução Peter Pan: só a turma do Capitão Gancho tem objetivo – vandalizar e destruir! Enquanto isso os meninos perdidos da Terra do Nunca e a terceira idade do Ano que Nunca Acabou, ficam brincando de revolucionário, sem respeitar o direito de ir e vir dos outros. Quando complicar vão pedir socorro para o crocodilo”. (Paulo Senra Breitschaft em comentário no Facebook).

Interessante é que o conceito “Peter Pan” andava mesmo há algum tempo circulando pela internet: os kidults (kid+adults nos EUA), os adultecentes (adultos+adolescentes em Portugal e na América Latina), os trintões (com síndrome de Peter Pan, na Espanha), os da Geração X (como se referem os especialistas de marketing) – basta uma consulta ao Google pelo termo “Geração Peter Pan” para conferir o retorno, em dezenas de páginas. Até o The New York Times, mencionou que Harry Porter é o Peter Pan da geração que está terminando a faculdade:

O sexto filme da série foi lançado quase doze anos após o livro que deu início à série: “Harry Potter and the Sorcerer’s Stone” (“Harry Potter e a Pedra Filosofal”). Os membros da geração que criou a “pottermania” como leitores pré-adolescentes estão se aproximando da formatura na faculdade ou ingressando no mercado de trabalho, e eles têm mantido acesa essa chama da sua adolescência. (23/07/2009 – 13h33 – Harry Potter é o Peter Pan da geração que está terminando a faculdade, por David Browne do The New York Times. Consultado em 21/07/2013 em http://goo.gl/AYuj5 )

Mas o uso político da metáfora do Professor Paulo Senra Breitschaft, surgiu novamente, desta vez nas páginas da versão digital da Revista da Cultura, em artigo assinado por Ulisses Tavares:

“A geração a que me refiro, infelizmente, não é essa, atual, que rouba e mata sem noção. É a minha, aquela que, quando jovem, acreditou em muitas tolices bem intencionadas. O Partido dos Trabalhadores […], o Partido Verde […], O MDB […], o Estatuto da Criança e do Adolescente […] que se tornou um aval para a bandidagem mirim. […] Feministas […]. Está mais que na hora de minha geração crescer, fazer mea culpa, ou culpa inteira, e dar a volta por cima, saindo debaixo dessa cumplicidade indecente.” (Ulisses Tavares, poeta, escritor e ativista político de  63 anos, participou ativamente de movimentos de cidadania no Brasil nas últimas décadas, inclusive ajudando a fundar partidos, consultado em 21/07/2013 em http://goo.gl/YSmID).

É interessante perceber a aplicação de uma mesma metáfora a duas gerações, de certa forma tão diferentes, e isso me faz pensar se não seria, talvez, porque o que é saliente na verdade é a percepção de certa alienação política presente em muitas gerações distintas, o que o saudoso Professor Cid Pacheco descrevia como Lei da Indiferença que versa sobre a normalidade dos quadros eleitorais marcados por pequenas minorias (politizadas) pró e contra e grandes maiorias indiferentes, maiorias indiferentes estas que com o avançar da eleição migram para uma das outras posições, diminuindo a indiferença num processo escalonado, que primeiro vai da indiferença à indefinição, depois à indecisão, depois à simpatia, para finalmente chegar a alguma adesão moderada – o que prevalece é o centro moderado e não os extremos estridentes, a maioria discreta e silenciosa, somente acessada artificialmente por pesquisas de opinião qualitativas e quantitativas (Serpa, 2013, p. 36).

Então vejamos as manifestações e os protestos brasileiros já considerados históricos que as maiorias parecem olvidar, seja por não os terem vivenciado, como no caso das gerações mais novas, seja por não atentarem a eles, como é o caso dos indiferentes. Vou ater-me aqui a somente aqueles que ajudaram a escrever o processo de redemocratização do Brasil, no final do século passado (viu como já tem tempo, outro século), Diretas já e o Impeachment de Collor.

Ano de 1979, o regime militar aprova medidas de abertura às liberdades democráticas no Brasil, como a substituição do sistema bipartidário por um multipartidarismo que abre espaço para a formação de novos partidos que ao mesmo tempo representavam maior direito de expressão política, também marca um processo de fragmentação político-partidária. Já em 1982 os novos partidos disputavam eleições estaduais no executivo e no legislativo. Num próximo passo a Câmara dos Deputados articula uma lei que instituiria o voto direto na escolha do sucessor do presidente militar General João Batista Figueiredo. A iniciativa toma forma de projeto de lei em 1983, a “Emenda Dante de Oliveira” que repercutiu nas capitais e grandes cidades do país, e membros dos partidos de oposição como PMDB, PT e PDT passam a organizar grandes comícios apoiados pela população favorável à escolha direta para o cargo de Presidente, manifestações que se transformaram no movimento das “Diretas Já!” – uma das maiores manifestações populares já ocorridas no país, marcadas por comícios liderados por figuras perseguidas pela ditadura militar, membros da classe artística, intelectuais que militavam pela aprovação do projeto de lei. Alguns números das dezenas de comícios organizados nas principais cidades brasileiras: janeiro de 1984, 300.000 pessoas na Praça da Sé, em São Paulo. Um milhão de cidadãos na Candelária, no Rio de Janeiro. E 1,7 milhões de pessoas em São Paulo, no Vale do Anhagabaú. 250.000 pessoas em Belo Horizonte. Percalços: afastamentos dos governadores de SP, RJ e MG dos comícios e sabotadores chegaram a jogar pó químico durante comício em Anápolis em Goiás.  Resultado: por uma diferença de apenas 22 votos e um vertiginoso número de abstenções, a emenda Dante de Oliveira que previa a eleição presidencial por voto popular não passou e o Brasil manteve o sistema indireto para as eleições de 1985. A oposição conseguiu eleger, por via indireta, Tancredo Neves – que morreu antes de tomar posse e foi substituído por José Sarney, ex-membro do partido do regime militar (Veja, Diretas Já / Rumo à Redemocratização consultado em 21de julho de 2013 em http://veja.abril.com.br/noticia/educacao/enem-protestos-historicos-no-brasil-diretas-ja-impeachment-de-collor-e-atuais-manifestacoes ).

Somente em 1989 os brasileiros puderam eleger seu Presidente, participando como nunca da Campanha Eleitoral na manhã de 15 de novembro, numa gigantesca mobilização nacional. A disputa final se deu em segundo turno entre Fernando Collor de Mello e Luiz Inácio Lula da Silva, vencendo o primeiro em três décadas escolhido por voto direto. Instalado o novo governo, o mais traumático dos planos econômicos confiscou a poupança e a conta-corrente dos Brasileiros na luta para acabar a inflação brasileira. Fracassos econômicos, trapalhadas políticas, denúncias de maus atos do governo, denúncias familiares, esquemas de poder paralelo. A população vai às ruas pedir a saída do Presidente, Congresso e Judiciário põem-se à caça de Collor, que em 29 de setembro cai, tornando-se o primeiro presidente da história política brasileira a sofrer processo de impeachment.  Em 2 de outubro o casal Rosane e Fernando Collor caminhando entre uma multidão que os vaiava, deixam o Planalto. Em 29 de dezembro Collor renuncia para evitar o impeachment, momentos antes do Senado julgá-lo culpado, cassando-lhe o mandato e os direitos políticos até o ano 2000. Em Miami, Collor permaneceu em silêncio até outubro de 1997, quando voltou ao Brasil para o julgamento de recurso no Supremo Tribunal Federal. Em fevereiro de 1998 o Conselho do Contribuinte, em Brasília, anunciou que Collor havia sido liberado do pagamento de 4 milhões de reais em impostos cobrados pela Receita Federal. Restou uma multa de 1 milhão. (Veja, Diretas Já / Impeachment de Collor e Caras Pintadas, consultado em 21de julho de 2013 em http://veja.abril.com.br/noticia/educacao/enem-protestos-historicos-no-brasil-diretas-ja-impeachment-de-collor-e-atuais-manifestacoes ).

Mas o que há de novo nos movimentos populares do século atual com relação aos do século passado. As do século passado eram manifestações de rua, de massas mobilizadas por iniciativa de forças políticas organizadas, em torno de motivações específica e/ou pontual. As atuais são manifestações de rua, de massas mobilizadas por iniciativa de grupos, mais que segmentados, fragmentados, em torno de motivações igualmente segmentadas ou fragmentadas, que aparentemente rejeitam lideranças políticas, e organizam-se através de utilização das mídias sociais digitais, menos significativas no século passado. A propósito, com formatação mais global, ou seja, modus operandis e ocorrências mais ou menos universais. Desde o século passado Norberto Bobbio já propunha uma reflexão à conjugação de democracia, bem estar social, liberdade e justiça social (Bobbio, 1986) (BOBBIO, Norberto. O futuro da Democracia: uma defesa das regras do jogo. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1986). Hoje, trinta anos depois, cidadãos do mundo ocidental buscam diretamente, através das manifestações nas ruas, o protagonismo da definição das ações estatais que correspondam às suas prioridades, numa tentativa de exercício de liberdade na busca de justiça social. Democracias representativas conjugadas às democracias participativas legitimamente constituídas não correspondem às aspirações da população, seja na França, na Espanha, nos Estados Unidos, na Turquia, no Egito, no Chile, e agora no Brasil… Uma das possíveis explicações seria que com a participação de todos pelas mídias sociais digitais, onde todos interagem entre si, a cidadania estaria dando passos largos rumo à democracia direta. Os movimentos brasileiros atuais que ganham nossas ruas não são conduzidos por líderes, por partidos políticos ou pelo interesse na tomada do poder. Seu combustível é uma causa justa. O que a “cidadania digital” exige é que o exercício do poder estatal seja norteado pela eficiência – saúde padrão Fifa, ética, rejeição à corrupção, sintonia fina com suas efetivas prioridades: “Nenhum político me representa…” Para Eliseu Padilha, presidente da Fundação Ulisses Guimarães (PMDB), as manifestações vieram para ficar:

“Elas simbolizam um novo estágio da cidadania. A vida em sociedade atingiu novos patamares. As conquistas da cidadania não serão renunciadas. Haverá variação nos temas, mas elas continuarão. A civilização do conhecimento e a globalização digital em que nos encontramos, viabilizam o protagonismo direto do cidadão nas ações estatais rotuladas como de seu interesse, especialmente nas relativas aos serviços públicos. O desafio é o de ler e interpretar corretamente o sentimento dos manifestantes. A meu ver, Max Weber tinha razão: político não é aquele que vive da política, mas sim aquele que vive para a política. Esta, conforme a concepção aristotélica, como ciência (atividade) voltada à promoção da felicidade dos cidadãos. Ai está a condição para a legitimação da representação política: O representante tem que viver para a política. Para a felicidade da Pólis”. (PADILHA, Eliseo. Qual Democracia? São Paulo: Site do PMDB postado em 18/07/2013, consultado em 21 de julho de 2013 em http://pmdb.org.br/artigos/qual-democracia )

Tomando outro aspecto relevante, o das minorias, o advogado, escritor e diplomata Alexandre Vidal Porto, com brilhantismo demonstra a complexidade das questões que envolvem o tema:

“Os alunos de uma escola coreana em Kyoto aprenderam essa lição quando um grupo ultranacionalista japonês organizou protestos contra a utilização por eles, alunos, do parque adjacente à escola. Para os manifestantes, o parque era só para japoneses. Filhos de estrangeiros não deveriam usá-lo. Isso foi em 2008. Desde o começo deste ano, porém, a frequência das ações dos ultranacionalistas japoneses aumentou. Recentemente, houve manifestações em que se exigia a saída dos estrangeiros do país, sob pena de serem massacrados. A virulência fez com que o parlamentar Yoshifu Arita apresentasse projeto de lei criminalizando o discurso de ódio contra minorias. A iniciativa do parlamentar é positiva. O nível da proteção estendida às minorias é indicativo da qualidade de um regime democrático. O membro de uma minoria, seja ela étnica, política, religiosa ou sexual, tem direitos que não podem ser ameaçados ou suprimidos. Líderes eleitos governam para todos, para os que com eles concordem ou não. Achar que as urnas asseguram o direito de ignorar os eleitores derrotados é autoritário. Trata-se de visão simplista, convenientemente deturpada, que considera a existência de eleições fator suficiente para conferir caráter democrático a um regime político. Acontece que, para o verdadeiro exercício da democracia, eleições são só o começo. É preciso, também, respeito a uma ordem constitucional pluralista, imprensa e instituições livres, e sistema judiciário que aplique a lei com equidade. Sobretudo, democracia pressupõe garantia aos direitos individuais. Sem isso, não adianta querer posar de democrático” (PORTO, Alexandre Vidal. Democracias de Mentira. São Paulo: Folha, 2013 consultado em 21 de julho de 2013).

Porto também relata a intransigência que inviabilizou o governo de Mohammed Mursi e aleijou a democracia egípcia:

“Líderes eleitos com instintos autoritários parecem acreditar que a vitória alcançada nas urnas lhes confere permissão para suprimir direitos aos que a eles se opõem. Com o objetivo de se eternizarem no poder, destroem o próprio sistema que os habilitou a governar. Democracia que não admite dissenso é só uma tirania eleita”. (PORTO, Alexandre Vidal. Democracias de Mentira. São Paulo: Folha, 2013 consultado em 21 de julho de 2013).

Mas, voltando à surpresa, e até indignação, frente às aparentes indefinições das motivações dos movimentos brasileiros atuais, como se explica a ausência de um fato gerador único, ou de lideranças não identificadas? Parece que a resposta está associada ao processo de construção de identidade e à teoria do consumo: vejamos.

É de Colin Campbell a observação de que no século XXI as pessoas são cada vez mais identificadas por seus desejos e preferências, que se manifestam naquilo que definimos como gostos pessoais. Entretanto, a satisfação das carências e a acumulação não são as bases do consumo hedonista moderno, em que o anseio pelo objeto pode trazer maior e mais intenso do que a efetivação da sua posse, como explica a socióloga Maria Lucia Bueno: “Essa isatisfação permanente seria a matriz do caráter insaciável do consumismo” (BUENO, Maria Lúcia. Por que ler Colin Campbell? In: dObras Vol 6. Número 13. Maio 2013. São Paulo: Estação das Letras e Cores, p. 20).

Gilles Lipovetsky vai tocar no ponto ao abordar o tema da Sociedade da Decepção, em entrevista a Cláudio Diniz. Para ele:

A decepção é um fenômeno que acompanha a condição humana e as sociedades modernas individualistas possibilitaram um sonho de uma felicidade crescente para todos. A democracia abriu caminho para o mito da felicidade coletiva. A sociedade de consumo propõe, incessantemente, novos desejos. Podemos e queremos cada vez mais. Nas sociedades tradicionais, havia a infelicidade, claro, mas era ela era ligada a Deus, à ordem das coisas. Agora sofremos por não ter nossos desejos satisfeitos e não compreendemos por que não somos felizes. Não conseguimos alcançar tudo. A vida privada se tornou muito complicada. Antes casamentos eram arranjados e casava-se para a vida toda. Isso não significava que as pessoas eram felizes, mas era assim. Hoje, você vive com alguém que escolheu. Numa sociedade que reconhece o amor como o principio da vida em comum, temos aí um fator de decepção. Não podemos amar sempre. Há também a vida profissional, que exige coisas que você não pode cumprir. Ou, às vezes, essa vida profissional é uma rotina. E a globalização cria condições intensas de competição, exigências. Nem todos se saem bem. Assistimos então a uma mistura de decepção, frustração e ansiedade. Na sociedade individualista, cada um assume os seus fracassos (DINIZ, Cláudio. Entrevista Gilles Lipovetsky. dObras. Vol.6 Número 13 Maio 2011. Ed. Estação das Letras).

Parece mesmo que este conceito está no ar. Nicolás Maduro, presidente da Venezuela mencionava sobre consumo capitalista em discurso recente, a seus ministros:

“O consumismo capitalista, companheiros, nos leva (sempre nos vai levar, sempre) à insatisfação do ser humano. É aquele ser humano que quando você lhe dá uma casa ele te diz, “dá-me um carro”, lhe dás o carro e te diz: “dá-me tal coisa” e está insatisfeito permanentemente. Isso vem sendo estudado, há um conjunto de especialistas estudando os fenômenos que se estão dando nas sociedades onde governam governos progressistas e revolucionários. Falam do fenômeno da insatisfação produto do capitalismo consumista que vimos promovendo. […] A única verdadeira superação dos anti-valores do capitalismo consumista é construir os valores da vida em felicidade, dos conceitos da felicidade social. E a revolução do socialismo e dos valores do socialismo no espiritual verdadeiro, no cultural, no moral, no ético, no ser humano que se sente identificado com sua pátria, que ama a sua família, e que é capaz com suas mãos, de fazer suas coisas e de sentir-se satisfeito do que fazem suas mãos, do que faz o poder que ele exerce. É ir construindo o socialismo chavista, socialismo nosso, verdadeiro. Essa é uma das grandes tarefas desta etapa: eficiência socialista. Não é qualquer eficiência, é a eficiência para construir o socialismo” (MADURO, Nicolás. Consumismo Capitalista. Reunión con Gobernadores postado em 17/07/2013, consultado em 21 de julho de 2013 em http://youtu.be/X8JeYQam694 )

Ligando os pontos, poderíamos arriscar um diagnóstico possível: estamos diante da manifestação de uma nova sociedade da insatisfação munida de uma poderosa ferramenta de comunicação (as mídias sociais digitais), que permitem conectividade entre pessoas que não se conhecem e que vêm o mundo de maneiras diferentes – por vezes conflitantes. Então seria necessário investir-se na formação para termos maiores possibilidades de maximizar a utilização dessas novas ferramentas que terão toda sua potencialidade se as pessoas souberem utilizá-las, como bem lembrou o Cláudio Diniz em sua conversa com Lipovetsky. Dessa habilidade de aprimorarmos nossas interações digitais e reais integrando vida pessoal e cidadania, dependerá a reinvenção da nova política, a Política 3.0 (se me permitem assim ousar nomear).

Quem viver verá. Com ou sem renovação de mandato. Até lá.

Referências bibliográficas:

BOBBIO, Norberto. O futuro da Democracia: uma defesa das regras do jogo. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1986.

BUENO, Maria Lúcia. Por que ler Colin Campbell? In: dObras Vol 6. Número 13. Maio 2013. São Paulo: Estação das Letras e Cores, p. 20

DINIZ, Cláudio. Entrevista Gilles Lipovetsky. dObras. Vol.6 Número 13 Maio 2011. Ed. Estação das Letras

SERPA, Marcelo. Eleições Espetaculares: como Hugo Chávez conquistou a Venezuela. Rio de Janeiro: Contracapa, Faperj, 2013. 208 p.

Referências na Internet:

http://www.estacaoletras.com.br/livros/dobras14.php

BREITSCHAFT, Paulo Senra. Revolução Peter Pan. Conceito emitido no facebook. Junho de 2013.

BROWNE, David. Harry Potter é o Peter Pan da geração que está terminando a faculdade. New York Times, consultado em 21/07/2013 em http://goo.gl/AYuj5

JABOUR, Arnaldo. Crônica: Manifestações. Telejornal Globo em 12 de junho de 2013. Consultado em 20/07/2013 em http://goo.gl/o3W6H

MADURO, Nicolás. Consumismo Capitalista. Reunión con Gobernadores postado em 17/07/2013, consultado em 21 de julho de 2013 em http://youtu.be/X8JeYQam694

PADILHA, Eliseo. Qual Democracia? São Paulo: Site do PMDB postado em 18/07/2013, consultado em 21 de julho de 2013 em http://pmdb.org.br/artigos/qual-democracia

PORTO, Alexandre Vidal. Democracias de Mentira. São Paulo: Folha de São Paulo – Digital, 20/07/2013 consultado em 21 de julho de 2013 em http://www1.folha.uol.com.br/colunas/alexandrevidalporto/ 2013/07/1314043-democracias-de-mentira.shtml

TAVARES, Ulisses. A geração Peter Pan precisa crescer. Revista Cultura (digital). São Paulo: Revista Cultura (digital), 10/07/2013 consultado em 21/07/2013 em http://goo.gl/YSmID

VEJA. Diretas Já / Impeachment de Collor e Caras Pintadas, consultado em 21de julho de 2013 em http://veja.abril.com.br/noticia/educacao/enem-protestos-historicos-no-brasil-diretas-ja-impeachment-de-collor-e-atuais-manifestacoes

VEJA. Diretas Já / Rumo à Redemocratização consultado em 21de julho de 2013 em http://veja.abril.com.br/noticia/educacao/enem-protestos-historicos-no-brasil-diretas-ja-impeachment-de-collor-e-atuais-manifestacoes